A libertação da escravatura, ocorrido em 13 de maio de 1.888 é o marco referencial das Congadas e Moçambiques de Monte Alegre de Minas. É nessa data que ainda hoje acontece o ápice dos festejos a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, nesse município.
Refletimos que através da libertação, os negros começaram a expressar publicamente suas origens culturais. Com o passar dos anos os Ternos se organizaram mais, despertando e envolvendo a comunidade montealegrense. Gradativamente conquistaram o respaldo da comunidade branca. Esse respaldo, em Monte Alegre de Minas, transformou-se em participação dos brancos na Festa.
Existem contradições relativas ao ano de fundação da Festa no município, considerado entre 1.883 ou 1.888. Percebemos que essa contradição assemelha-se a questão da fundação e emancipação do município. Comemoramos o aniversário da cidade através da sua data de emancipação política não por sua fundação, que desconhecemos com exatidão e data.
Cremos que em 1.883 os negros realizavam seus rituais em pequenos grupos. Expressavam-se por meio da dança, cantoria e percussões africanizadas. Tinham que conviver com as imposições e perseguições do ritualismo cristão dos seus senhores. A partir de 1.888, libertos, “emancipados”, fizeram-se presentes, afirmando-se nas práticas sociais visíveis a todos, permanecendo até os dias de hoje no 13 de maio.
Culturalmente em Monte Alegre de Minas as Congadas e Moçambiques ainda podem ser consideradas o símbolo da resistência negra.
Os valores e a práticas expressadas por eles contagiam e envolvem os brancos, mas continuam sendo originalmente fundamentados nas tradições africanas. Segundo Luiz Carlos do Carmo, mestre em história, “ a independência, o advento da República, a construção das formas embrionárias de urbanização, as diversas expansões da fronteira de desbravamento e exploração das riquezas naturais deste país, entre outros momentos, conviveram com fragmentos de lembranças da Dança com a Serpente ou com as Espadas, com a fé, a confiança na intercessão de São Benedito, Santa Efigênia, Nossa Senhora do Rosário e outros Santos e Orixás de contato simples e sintonia direta desse grupo de homens e mulheres negras e de seus antepassados”.
O Sr. Zecão um dos capitães mais velhos, nos conta que aprendeu com seu pai que a Festa começou na “roça”, num lugar chamado “poção”. Ele relatou que “o povo saia da cidade a pé ou de cavalo par ir ver e ouvir as batidas e as cantorias”. Segundo Zecão as indumentárias eram simples, usavam “precatas” nos pés e construíam seus próprios instrumentos. Era costume vir Ternos de Uberabinha (Uberlândia), pela estrada boiadeira para participar dos festejos, onde caminhavam léguas a pé e levavam até dois dias para chegar ao local da festa.
Por falta de registros oficiais da época, atualmente é divulgado o ano de fundação como sendo 1883, podendo na verdade ser mais ou menos anos, não sabemos ao certo. Pode-se, porém afirmar pelos relatos ouvidos que a Festa em Louvor a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito é o manifesto cultural mais antigo do município. A festa mantém-se envolvente e significativa, proporcionalmente ao desenvolvimento do município, ela envolve grande participação popular direta e ou indiretamente. É possível afirmar ainda que considerando-se as intervenções de adequação, ela mantém 80% das características originais. As tradições dos festejos são perpetuadas de uma geração a outra. Os conhecimentos são transmitidos de Capitão para soldado, ou do mais velho para o mais novo, ou do pai para filho e na falta deste para um parente mais próximo, ou até para um dos integrantes do Terno interessado em dar continuidade as tradições.
Vivendo suas devoções a nossa Senhora do Rosário e São Benedito, os Congadeiros e Moçambiques de Monte Alegre de Minas, num ritual reafirmando suas tradições. Ora resistindo as mudanças da modernidade e ou adaptando-se a ela, ora sobrevivendo às divergências de idéias entre os próprios membros dos Ternos. Congadeiros e Moçambiqueiros sonham, lutam, trabalham hoje numa grande miscigenação de raças, isso os diferenciam de outros Ternos de cidades vizinhas. Há ternos compostos de uma maioria branca, inclusive o Capitão, como o Terno Dona Senhorinha (congado), Terno Estrela da Guia de São Benedito (Moçambique). A participação também de homossexuais, candomblecistas e outros fazem com que os festejos em Monte Alegre de Minas tenha um sentido de igualdade social, econômica, religiosa e racial, diferenciando a festa de outras comunidades próximas. Na Festa, ricos e pobres se misturam, dançando ou assistindo, isso torna a festa uma manifestação democrática e participativa, segundo a observação de estudiosos e pesquisadores que comparecem na realização da festa.
Não se pode negar em momento algum a origem dos ancestrais fundadores da festa que são os negros, mas é incontestável a reconstrução de identidade presente nesta manifestação. Ela ecoa o regime governamental presente na sua forma democrática que independe da cor, credo, condições econômicas, são adequações sofridas com o passar dos anos, refletidas também pela miscigenação do povo brasileiro.
Essas adequações oscilam-se num constante questionamento feito entre os mentores da festa (a qual não nos cabe responder no momento) até que ponto essas mudanças devem ser aceitas para que não haja a descaracterização total da festa?
A inclusão dos brancos na festa de negros ocorreu gradativamente, com ampliação do número de integrantes e a formação de novos Ternos. Houve um período na história dos Congados e Moçambiques de Monte Alegre de Minas, que a figura de um homem branco, espiritualista, de família tradicional montealegrense o Sr. Eliziário de Vasconcelos, o popular “Caboclo”, exerceu papel de liderança na Festa.
Ele abraçou as causas da Festa, passou a orientar e estruturar os Ternos, tornando-se posteriormente um coordenador geral da Festa. O Caboclo, como preferia ser chamado, dedicou grande parte da sua vida à auxiliar os velhos Capitães Congadeiros e Moçambiqueiros. Segundo depoimentos dos seus familiares e amigos, ele montou um quartel para reunir os Ternos, fazer a chamada entre outros rituais e pela Festa trabalhou até seus últimos dias de vida.
Em respeito a sua memória a praça em frente ao citado quartel, recebeu o seu nome e ainda hoje no dia 8 de maio (data de seu aniversário), os ternos se reúnem no seu entorno para lhe prestar homenagens.
Do ponto de vista cultural e sociológico, notamos uma costumeira divergência entre os Ternos e as vezes entre os próprios integrantes de um mesmo Terno. Esse fato tornou-se evidente nos últimos anos (desde 1.989) quando foi criado o Movimento de Participação Popular da Comunidade Negra Montealegrense. Paralelamente foi criado também o Serviço Municipal de Cultura (hoje Departamento de Cultura e Turismo) pela Prefeitura de Monte Alegre de Minas. O movimento e o Setor de Cultura passaram a acessorar a organização dos festejos, mantendo-se ainda a efetiva participação da Igreja Católica nas celebrações. Durante as reuniões ficaram evidenciadas as diferenças de opiniões e anseios entre os participantes, como normalmente acontecem em grupos muitos numerosos. Enquanto uns pediam por mudanças na Programação da Festa, outros preferiam mantê-los nos parâmetros já estabelecidos.
O fato é que havia dois Ternos de Congados, o Camisa Rosa e o Branco e o Terno de Moçambique Camisa Rosa. Nesse período, segundo o Sr. Zecão e o Sr. Verdiano, os ensaios não eram em quartéis, tinham como referência o “Poção”, na Zona rural. Ali de um lado ensaiava o terno de Congado Branco, do outro lado no “areião” (hoje Rua Vitório Alessandri), ensaiava o Terno de Congado Camisa Rosa, que nasceu na “Ponte Queimada” perto da atual “Biquinha da Serrinha”, próximo ao atual Bairro Chapada. O Sr. Zecão conta que quando a Capitã Maria do Braz do Terno de Congado Camisa Rosa, faleceu, o Sr. Prudêncio assumiu o lugar de 1° Capitão do Terno e o levou para Rua Bento Gonçalves (Bairro Flamengo que era chamado popularmente de “Cundungo” . O Sr. João Messias que era 2° capitão não concordou com a mudança feita pelo 1° Capitão (Prudêncio) e montou o Terno de Congado Azul Claro, no Bairro Chapada, com as crianças ali da redondeza. Desde aquela época até a atualidade os Bairros Flamengo e Chapada, concentram-se a maior parte da comunidade negra montealegrense.
Existe a menção de que no período entre 1.923 a 1.926, havia a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e a “Egreja do Rosário”. Segundo a Dona Horades Parreira Guerra, nessa época seus pais foram festeiros e serviam o café da manhã da alvorada na sua residência. Nota-se então que o numero de componentes dos Ternos, não era tão volumoso quanto é nos dias atuais. Segundo a Sra. Antonieta Rosa da Silva, zeladora da atual Igreja Nossa Senhora do Rosário, a antiga “Egreja do Rosário” ficava no quarteirão onde atualmente é a Praça do Fórum. Sua construção não chegou a ser 100% concluída, era somente barreada, sem pintura. Foi edificada com doações de vacas, sacas de feijão, arroz que os Capitães Braz, Prudêncio e Antônio, vendiam e aplicavam o dinheiro arrecadado na construção.
Naquela época faziam nela rezas de terços e quem puxava a reza era o Sr. Norato Arantes. Antonieta disse ainda que por volta de 1.945 ela foi derrubada para no mesmo local ser construído um campo de aviação. Chegaram a colocar o coador, “Biruta”, mas o terreno acabou se transformando num campo de futebol que originou o Triângulo Sport Club. Em conseqüência a Festa tomou outros rumos, buscando o auxílio permanente da paróquia local e sua realização passou a ter como referência a Igreja Matriz São Francisco das Chagas. A partir de 1.974 com a chegada do Frei Beniamino em Monte Alegre de Minas, o novo pároco inicialmente promoveu concursos durante a Festa, para incentivar a organização entre os Ternos. Eles procuravam melhorar as indumentárias e competiam nas apresentações, mas segundo a Sra. Benedita Vieira, secretária da Casa Paroquial desde aquela época, os premiados ficavam envaidecidos, enquanto os outros não aceitavam pacificamente a derrota e partiam para agressões verbais e físicas contra os componentes “adversários”. Foi então nesse mesmo período, implantado o desfile dos Ternos descendo a Avenida 16 de setembro no dia 13 de maio. Em conseqüência dos constantes atritos conflituosos entre os Ternos, a Igreja recuou. Deixou-se de promover o concurso e dando liberdade para os Ternos se organizarem ao seu modo, passou a ocupar-se apenas da novena e os rituais celebrativos religiosos. As divergências diminuíram, mas devido ao excesso de consumo de água ardente pelos dançantes durante a Festa, houve novo atrito entre os Ternos e o Padre. Foi proibido a entrada de pessoas embriagadas dentro da Igreja, e bater caixa no seu interior.
Mais tarde houve novas desavenças pelo não cumprimento do horário, sempre conflitante, do término do desfile com o início da celebração no dia 13 de maio.
A Festa sofreu outra intervenção, através da introdução de repasse de verbas da Prefeitura para auxiliar os Ternos na alimentação, indumentárias e instrumentos. A partir de 1.989 a Prefeitura com o respaldo da Câmara Municipal, começou a fazer repasses ao Movimento de Participação Popular da Comunidade Negra Montealegrense, através do Serviço Municipal de Cultura (hoje Departamento Municipal de Cultura e Turismo) ambos criados naquele período. Para efetivar os repasses o Movimento Negro, através da sua Presidente a Sra. Vera Lúcia Costa Silva, organizou a documentação dos Ternos, as quais mais tarde manifestaram descontentamento, pois alegaram não ter em sua posse seus próprios documentos. A Sra. Vera, defendia-se por outro lado, argumentando que não lhes entregava por medida de conservação dos mesmos.
Aumentou assim gradativa e lentamente as mudanças nas tradições dos rituais, alterando a cada ano a programação da Festa. A maioria dos Ternos deixou de “tirar esmola”, pois já contavam com a verba do poder público; surgiram encontros previamente agendados nos quartéis, para facilitar o acompanhamento da comunidade e visitantes; alterou o trajeto do desfile, o local de levantar os mastros e a celebração da novena, com as obras da nova Igreja de Nossa Senhora do Rosário (concluída em 2.007); o café servido pelos festeiros após as alvoradas (dia 4 inicio da novena e 13 seu encerramento) passou para locais públicos mais amplos, para melhor acomodação dos Ternos. Permaneceu como questão polêmica da Festa, o desfile do dia 13 de maio. A definição da ordem dos Ternos, feita por sorteio, quase sempre desagrada os que ficam por último e a definição do horário quase nunca é cumprida no seu momento de iniciar e encerrar. Segundo os organizadores, alguns Ternos “amarram” o desfile quando não ficam na ordem desejada.
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