
Monumento aos Heróicos Retirantes de Laguna
Bem Tombado pelo Decreto nº 2.966 de 09 de abril de 1999
Somos cientes de que todas as guerras são más, que sempre há pessoas que as repudiam, acabando, porém por cumprir seus deveres para com a pátria. Todas as guerras, até as mais santas, trazem horrores e sofrimentos aos mais inocentes. A Guerra do Paraguai, portanto, não seria diferente. Foi uma grande devastadora de povos, que movidos pelos povos, que movidos pelo sentimento popular na época de honrar a pátria, foram voluntários, e segundo León Pomer, “distribuídos como cartas de baralho.”
Os interesses que levaram à guerra, segundo Paulo Duarte, foram relacionados ás afrontas ao Império e tentativas de ocupação da Província do Mato Grosso, pelo Governo Paraguaio. Contudo na visão de León Pomer diz que esta foi “uma guerra de rapina, mantida e camuflada por interesses obscuros.”
O fato é que, “ Antes mesmo da organização do Corpo Expedicionário que devia operar ao sul de Mato Grosso, forças de Francisco Solano Lopes haviam investido contra a Província, ocupando vários de suas povoações em um bom trato de sua área sudoeste de Mato Grosso.”
Nessa primeira empreitada os paraguaios conseguiram realizar as seguintes conquistas: ocupar o Forte de Coimbra, Albuquerque e Corumbá (que anteriormente foram abandonados pelos brasileiros), em 1.865, os vapores paraguaios em suas explorações pelo Rio São Lourenço, capturam o “Anhambahy” com sua tripulação, enviada presas para Corumbá.
Pela necessidade de restabelecer a ordem em Mato Grosso, o Governo Imperial decidiu tomar providências.
Foram acionadas as tropas das Províncias do Paraná, São Paulo, Goiás, Minas Gerais. Atendendo ao Império, formaram-se comissões para alistar soldados e voluntários.
No preparo da Brigada, foi improvisado, fardamento desde bonés até mochilas, devido aos poucos recursos que dispunham.
Animados para defender a Pátria e já dada por encerrada a campanha do Uruguai, a ação se voltava para o Paraguai, era preciso levar socorro à invadida Província de Mato Grosso.
Em Uberaba reuniram-se as tropas da Guarda Nacional e demais voluntários para seguirem seu destino, o qual era movido ainda, pelo mesmo entusiasmo de servir a pátria.
Minas Gerais apresentou maior contingente. Nas solenidades de despedidas, foram rezadas missas, realizaram discursos, fizeram juramento a bandeira e em especial a Banda de Música Mineira, já tradicionalmente conhecida naquela época, pela sua boa produção musical, animou aos que partiam e acalentava os que ficavam.
No entanto heroicamente a expedição brasileira, passou por difíceis provocações, no decorrer dos caminhos até a operação ao sul de Mato Grosso.
Atravessou os grandes sertões Goianos, e, seguida fizeram a travessia de imensos pantanais, rios, sofreram pela escassez de alimentos e higiene. Passaram por lugares já saqueados e destruídos pelos paraguaios. Mesmo assim marcharam por Nioac, por Miranda, com muita ordem e regularidade.
Tiveram sempre contatos breves com inimigos, e deles não fugiam. Independente das circunstâncias estavam prontos para construir barcos, abandoná-los, fazer pontes, destruí-las, quando se fazia necessário e a luta era constante e difícil.
Os soldados brasileiros eram perseverantes, pois não recuavam com facilidade, esse lhes parecia ser o último dos desejos. Porém pareciam estar sempre em desvantagem, principalmente quanto a artilharia. E quem mais sofria a penalidade, nesse sentido, obviamente era o batalhão da vanguarda, deixando muitas vezes rastros tristes com mortos e feridos.
O sofrimento crescia a cada avanço, com a fome, com a cólera que os confrontaram (beribéri, cholera), a nudez de encontro com as tempestades de chuva, vento ou com os tórridos raios do sol e até o fogo em matas somou-se ao fogo das armas que em ataques dispersavam ainda mais o gado, fazendo-se perder toda sua comida.
Milagrosamente escapavam alguns oficiais e voluntários que seguiam sua jornada avançado do Apa até Laguna. Cada vez mais flagelados, continuaram, até se verem completamente cercados pelos inimigos. Apesar de ter chegado a Laguna, quase totalmente aniquilados pelas condições que se encontravam e numericamente inferiores, decidiram retornar.
E mais uma vez viveram uma grande dificuldade, escolher o melhor cominho para voltar, pois os inimigos não davam trégua e seria difícil naquelas condições miseráveis, enfrentar maiores confrontos com o inimigo.
A marcha de retorno, não foi amena e no desespero chegavam, algumas vezes, a achar que se tratava de uma conspiração divina contra eles. Aos poucos tudo se resumia num verdadeiro caos de desordem e desespero. Os ruídos emitidos pelos inimigos, mugidos do gado, explosões, uma verdadeira apoteose em potência. Conforme já foi descrito por alguns estudiosos.
Quando preciso, trocavam as posições, mas não perdiam a rumo a Bela Vista, enquanto prosseguia também a incansável perseguição do inimigo.
Muitos corpos ficaram para traz, a maioria mortos, entre outros abandonados, num episódio triste, agonizando até a morte vinda da doença (cholera), ou sendo aliviados posteriormente ao abandono, pela crueldade dos inimigos que lhes amarravam em arvores e decepavam suas cabeças; num ritual de perversidade macabra. Isso após ter sido tomada uma difícil decisão entre levar os doentes e contaminar os demais ou abandoná-los, o Coronel Camisão viu-se obrigado a optar em abandonar os pobres enfermos, para poder salvar o restante seguindo em frente. Ele mesmo assumiu total responsabilidade desse ato desumano, sem a rejeição do grupo, cientes de que paradoxalmente, a pior decisão era a melhor. Esta epidemia, a cholera, estava desenvolvendo-se rapidamente entre Coxim e Miranda, e nem ao próximo Coronel Camisão deixou à salvo.
Nossa artilharia tinha os tiros mais certeiros, o que nos rendeu algumas vitorias e condições para chegar na margem do Taquaruçu, onde os inimigos paraguaios devem por determinada a sua cerrada perseguição.
Sendo que eles mesmos deram o grito de retirada.
Os heróicos brasileiros chegaram a margem esquerda do Rio Aquidauana com número reduzido de combatentes. E ao entrar em Cuiabá, a coluna Expedicionária contava apenas com 395 homens em 1867. Sendo que iniciaram sua jornada com 1.210 homens. Lembramos que se juntaram durante o percurso.
O Governo Imperial concedeu-lhes Medalhas de Honra em reconhecimento a penosa missão imposta à Força Expedicionária ao Sul de Mato Grosso.
“Atendendo à constância e ao valor, com que, não obstante as privações sofridas se houveram as Forças Expedicionárias de Mato Grosso, batendo vigorosamente as colunas paraguaias em os combates que com elas travaram em território inimigo.”
O governo Imperial decidiu enviar uma Força para operar na região sul de Mato Grosso. Devido a posição hostil do Governo Paraguai, de invadir esta Província, Mato Grosso.
Foram acionadas tropas das Províncias do Paraná, São Paulo, Goiás e Minas Gerais com maior contingente.
O Presidente da Província de Minas Gerais era o desembargador Pedro de Alcântara Cerqueira Leite, e a Capital mineira era Ouro Preto.
Os mineiros, a maioria convocados como Voluntários foram corajosos e capazes de grandes sacrifícios pela hora da Pátria, conforme afirmou Paulo de Queiroz Duarte em Os voluntários da Pátria na Guerra do Paraguai.
A principio os artigos essenciais ao equipamento das praças, desde armamento e munições de guerra, até uniformes, barracas, mochilas, lhe faltavam aos depósitos mineiros e muito se conseguiu através de improvisos, porem nada abatia de coragem, movido pelo nobre sentimento patriota.
A cidade de Uberaba ficou registrada em livros pela participação nessa empreitada. Nela reuniram-se 1.041 guardas somando a estes as tropas mandadas das Províncias do Paraná e São Paulo no dia 21 de junho de 1.865. Depois de unidos as Forças fizeram etapas de Uberaba a Miranda, em Mato Grosso e de Miranda a Laguna, no Paraguai.
Em síntese ouve dois corpos de voluntários Mineiros, segundo estudos que fizemos em livros que narraram a Guerra do Paraguai: “O 17º Corpo de voluntários foi organizado com destino ao Corpo Expedicionário de Mato Grosso, e com ele tomou parte na celebre Retirada da Laguna, ao passo que o 18º, teve por destino o teatro de operações no Rio Grande do Sul.”
O Corpo de Voluntários da Policia, não aceitou de pleno juízo e boa vontade, pela expressão de voluntários, pois acharam que não lhes cabia por inteiro, este termo. Porém, juntaram-se de boa vontade ao grupo, alguns índios, mulheres e representando o Corpo eclesiástico o padre Capelão Antônio Augusto do Carmo, entre outros.
Estes Voluntários enfrentaram várias batalhas desde a sua partida ao encontro dos paraguaios. Desbravaram os sertões despovoados de Goiás e Mato Grosso à procura do inimigo. Na travessia do Rio Miranda enfrentaram brejos lamacentos, feixes de macega e a lama visguenta que para muitos serviu como túmulo.
No decorrer dos caminhos trilhados, cruzaram com o inimigo e muitas vezes foram vitoriosos nas lutas travadas. Mas também travaram lutas contra a fome e a miséria, onde muitos não sobreviveram.
Houve momentos mágicos em que a Banda de Música Mineira alegrava os acampamentos da Forças. No entanto houve também momentos de muita tristeza, quando, por exemplo, enfrentaram a epidemia da “peneira”, nome popular dado pelos soldados a beribéri, onde alguns morreram. E o momento máximo de horror, quando, após passarem por tempestades, enfrentaram a cólera da cholera, que fez muitas vitimas. O Coronel Camisão se viu obrigado a abandonar alguns enfermos, na tentativa de salvar o restante do grupo e poder seguir em frente, e até ele mesmo sofreu as conseqüências da cholera e acabou não resistindo a ela.
Em desvantagem numérica, pela quantidade inferior de homens, continuaram enfrentando tempestades ora de água, ora de fogo invadiram o Paraguai, com o 17º de voluntários, fazendo o serviço de retaguarda, em outros momentos faziam a vanguarda, tendo algumas vezes que recuar.
“Arrebatado todo o gado pela cavalaria paraguaia, reduzido o efetivo da Coluna, pelas baixas ocorridas nos combates de 6,8 e 11 de maio, perdida toda a esperança de uma revanche, iniciou-se a Coluna a retirada forçada. O problema da escolha da estrada a trilhar impunha uma pronta e decisiva solução.”
Reduzidos a roupa do corpo e com muita dor, vinda de quase todos os sentidos, pelas perdas, pelos ferimentos, por todas as experiências vividas nos combates, 395 homens chegaram em Cuiabá, para tanto foram vacinados, embora em relatórios partidos de Uberaba contam que em alguns estas vacinas não surtiram efeito. Acreditamos que nesse retorno perdemos mais alguns praças, que segundos relatos de moradores montealegrenses, cinco deles vieram a fazer sua última morada em Monte Alegre de Minas.
“aprendemos de nossos pais e avós, que aquele cercadinho de poucos metros quadrados, à Margem do córrego Monte Alegre e a meia légua da cidade, abriga os despojos de quatro, segundo uns, ou cinco, segundo outros, soldados brasileiros, que na campanha escaparam nos combates travados com o inimigo, à cólera, à fome, mas que aqui encontraram a morte causada pela varíola, daí o nome popular de Cemitério dos Bexiguentos.”
Alaor Guimarães Mendonça – in Memorian
A três quilômetros da Cidade de Monte Alegre, a 1200 metros da rodovia BR-365 que demanda a Brasília, está localizado um Monumento Histórico, um patrimônio nacional, que acolheu os Voluntários da Pátria alguns em sua ultima morada, vitimados pela varíola.
Esses voluntários que em 1867 por aqui passaram, vinham de um acampamento militar no Caçu e Caximbo, nos arredores de Uberaba, rumando para Santa Rita do Paranaíba, Dores do Rio Verde, Coxim, para lutar no Paraguai.
Ao se retirar de Laguna, parte desta tropa voltou pelo mesmo roteiro, passando por Dores do Rio Verde vindo de Coxim, o 20º Batalhão de Goiás voltou para Vila Boa.
Para Monte Alegre voltaram seus soldados, os arrieiros, carreiros e soldados de outras localidades que aqui estão sepultados, cujo destino ficou ignorado.
No Livro “Retirada da Laguna”, 4º edição francesa de autoria do oficial bacharel Alfredo D’ Escragnolle Taunay, o Visconde de Taunay, que participou desta jornada heróica a para de seu retrato e muitas ilustrações está um mapa que mostra o trajeto da tropa. Por este mapa, embora não cite Monte Alegre como também outros arraiais deste trajeto, mas os pontos mais importantes como Uberaba, Santa Rita, Coxim, pode-se verificar que a rota da coluna se ajusta, calha em cima da cidade de Monte Alegre de Minas. Há também várias anotações deste episodio da retirada da Laguna: - “No dia da invasão do território paraguaio, em abril de 1.867, era o efetivo da coluna de 1.680 soldados. A 11 de junho reduzira-se a 700 combatentes. Perdera-nos pois 908 soldados pela cólera e o fogo. Morrera, além disso, grande número de índios, mulheres e homens, negociantes ou camaradas que haviam acompanhado a marcha agressiva do nosso corpo.”
Graças aos esforços e trabalho pessoal do Sr. Alaor Guimarães Mendonça, filho de Monte Alegre, historiador, jornalista, pintor, que tanto se empenhou, dando parte de sua vida para preservar o nosso patrimônio histórico. Segue em anexo, documentação de Sr. Alaor, todo trabalho de reivindicação para que neste local fosse erigido o Monumento em homenagem a alguns heróis aqui sepultados.
No dia 11 de junho de 1.967, no centenário da Retirada da Laguna, o Sr. Alaor Mendonça conseguiu inaugurar um obelisco e um pequeno muro de proteção às sepulturas dos soldados mortos, que eram antes, somente marcados com algumas estacas de aroeiras. Segundo a tradição histórica, alguns soldados que voltaram de Laguna, sucumbiram naquele local, após passarem por batalhas, fome, cólera e já na divisa do Brasil encontraram-se com varíola, enfraquecidos e cheios de bexigas não poderão entrar no arraial de Monte Alegre. Pois este arraial não dispunha de recursos médicos necessários e seus moradores temiam pela alastração deste mal, a varíola, entre a comunidade.
Por muito tempo o cemitério esteve abandonado. A bica d’água que servia para regar as plantas e que foi usada pelos soldados, secou. Velhos jatobás, sob os quais os soldados se abrigaram e morreram, estavam sofrendo degradação por vândalos. Mas felizmente ainda conserva-se um dessa espécie de árvore frutífera, localizado ao lado esquerdo do cemitério.
O cemitério constituía-se de um pequeno cercado de cimento que protegia um cruzeiro e lascas de aroeira que protegiam as sepulturas dos soldados. O cruzeiro foi danificado, arrancaram sua trave horizontal, que foi posteriormente restaurada e reforçada por uma trave de ferro ao centro.
Várias melhorias foram feitas a partir de 1967. Em 1979, por exemplo, Monte Alegre obteve com o auxílio do Cel. Ari Vaz de Melo, Tenente Coronel Francisco da Ressurreição Castro, melhoramentos do patrimônio histórico de Monte Alegre. Conseguiram por intermédio do exército que o MEC beneficiasse Monte Alegre com uma verba, que veio permitir a construção de uma casa para o zelador residente com cantina para servir o visitante entre outros melhoramentos.
Muitas homenagens são realizadas neste local, como missa campal em presença do 17º Batalhão de Polícia Militar, até as mais simples e anônimas, como nossos heróis, preces isoladas, silenciosas, velas acesas, coroa de flores em finados.
Este Monumento, que uns chamam de Monumento aos Heróicos Retirantes de Laguna, outros Monumento aos Heróis de Laguna, até popularmente como Cemitério dos Bexiguentos, foi referendado dentro dos limites dos cofres públicos por todas as administrações desde os trabalhos iniciados pelo senhor Alaor Guimarães Mendonça até os dias atuais.
Texto retirado do Dossiê de Tombamento do Monumento aos Heróicos Retirantes de Laguna, disponível para consulta no Departamento Municipal de Cultura e Turismo.
Perfeito! Artigo muito bem elaborado. Rico em detalhes e que esclarece muitos pontos para quem já visitou o local e desconhece os fatos que marcaram aquela época e o cemitério em si. Parabéns!
ResponderExcluirAdorei o esclarecimento.Sempre via a placa singela mas nao sabia dos fatos
ResponderExcluirNo final diz que o "Texto foi retirado do Dossiê de Tombamento do Monumento aos Heróicos Retirantes de Laguna, disponível para consulta no Departamento Municipal de Cultura e Turismo." De qual cidade?
ResponderExcluirMonte Alegre de Minas
ExcluirMuito útil
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